A viagem que eu não planejei (mas orcei)
Como saí de casa sem saber para onde iria, mas sabendo quanto podia gastar.
Já tem tempo que estou ensaiando essa volta. Mas a tal da inspiração para escrever só veio em momentos inapropriados (leia-se: férias, finais de semana e afins). Você pode estar pensando: “Qual é o problema disso? Use o momento da inspiração e escreva, oras.”
A questão é que tenho uma tendência de não me aquietar facilmente e, por isso, fiz combinados comigo mesma de não produzir, o que quer que seja, em determinadas situações. Se você já leu A Sociedade do Cansaço, vai entender o que estou falando. Se não leu e sente que é uma pessoa que tem dificuldade de não produzir nada e ficar em paz com isso, recomendo a leitura.
Mas o texto de hoje não é sobre isso (ainda que pudesse ser – adoro esse tema!). Nesta edição de retorno quero falar das minhas últimas férias, dentro de um contexto de planejamento financeiro! Pensa numa pessoa que amaaaa viajar e planejar TUDO o que envolve o destino. Prazer, Carolina.
Por muitos anos, viajei com roteiros super bem bolados e zero rígidos. Eu realmente sempre prezei pela flexibilidade e pela adaptabilidade da viagem. Inclusive, até hoje não curto reservar restaurantes e horários de passeios com antecedência, exatamente por odiar ficar presa a horários e escolhas que podem não fazer sentido no dia.
O planejamento de viagem que gosto de fazer (veja bem, nem sempre é assim!) envolve definir as bases/hospedagens, mapear passeios, encadeá-los numa sequência minimamente lógica e ter um “menu de opções” para escolher o que faz sentido durante a viagem.
A partir disso, faço um levantamento macro dos custos e vejo se está aderente ao meu orçamento disponível para viagens naquele ano. Considero essa parte essencial e voltarei a ela até o final deste texto.
Se você viaja gastando sem saber o espaço que essa viagem ocupa dentro da sua vida financeira e na realização dos seus sonhos (e sonhos custam dinheiro!), é provável que você não esteja sendo intencional com a sua grana. Sinal amarelo aqui.
Pois bem, a questão é que a última viagem foi bem diferente (pero no mucho). Eu tinha bloqueado minha agenda para os atendimentos da consultoria financeira, meu marido estaria de férias, havíamos conseguido um vale-avós de seis dias para ficar com nosso filho (um salve aos meus pais aqui!) e tínhamos zero programação. Queria viajar? Sim. Pra onde? Não sei.
Rodei o Brasil e o mundo no Skyscanner, mas só encontrei passagens ultra mega caras. Um parêntese aqui: tenho uma dificuldade absurda de gastar rios de dinheiro em passagens aéreas quando sinto que elas estão absurdamente acima do “normal”. Isso provavelmente merece uma newsletter própria (nem cheguei ao tema central de hoje e já estou com duas edições para escrever. São muitas abas abertas. Voltemos).
Como tenho um marido que lida com dinheiro de uma forma muito parecida comigo (problema ou solução? Olha outra edição aí kkkkrying), ele também achou mais razoável fazer uma viagem de carro. E foi a partir dessa “restrição”, que a mágica começou. Resolvemos decidir o destino no caminho, conforme a previsão do tempo e a nossa vontade. Young, wild and free.
Seguimos para Ubatuba. Vimos um chalé que parecia ser muito gostoso e estava disponível exatamente nos dois primeiros dias da viagem. A partir dali decidiríamos os próximos destinos. Uma versão Carolina ao som de Zeca Pagodinho deixando a vida me levar, será? Hum... nem tanto.
Se tem uma coisa que eu gosto de fazer é planejar custos, receitas, fazer projeções e brincar que controlo a vida (risos de nervoso). Mas, falando sério, como já antecipei aqui, o orçamento de viagem faz parte do orçamento do ano que, por definição, me dá uma ideia bem aproximada de “quanto custa a vida que eu quero/posso” ter (da escola ao mercado, precisamos SIM ter uma ideia de quanto custamos para orbitar neste planeta!).
Só que dificilmente faço “apenas” uma viagem no ano. Logo, esse valor destinado às viagens precisa ser fatiado em diversas mini viagens. Ou melhor, entre viagens menores e viagens maiores. Para a minha realidade (muitíssimo privilegiada, mas com consciência de que dinheiro não cresce em árvore), essa era uma viagem de “pequeno/médio porte”. Então, mesmo antes de colocar o pé na estrada, já havia mapeado quanto essa viagem iria custar (aproximadamente, claro), com base em:
quantidade de dias de viagem;
valor médio da diária;
valor médio, por dia, das refeições;
valor dos passeios desejados. Neste item, minha estimativa depende da viagem. Para viagens maiores, defino um valor médio por pessoa por dia (alguns dias não têm passeio nenhum, alguns dias têm passeios caros e, na média, acaba funcionando). Já quando a viagem é mais curta, mas tem passeios bem específicos e caros, somo esses valores e adiciono ao valor médio por dia;
valor do transporte. Nesta viagem em específico era “só” o tanque de gasolina, pois fomos com o nosso carro, então meio que ignoro porque já está “incluído” nos gastos da vida cotidiana sem viagem. Mas aqui costumam entrar a passagem aérea, o aluguel do carro, as passagens de trem, os voos internos quando é um destino internacional etc. Ainda adiciono um valor médio por dia para despesas extras envolvendo transporte (estacionamento, transporte público, pedágio etc.);
valor disponível para compras. Confesso que hoje em dia compro tão, mas tão pouco, que nem adiciono isso mais. Porém, já tive minhas fases “comprinhas de viagem” e sempre reservava um valor para isso. Recomendo fortemente;
contingência. Basicamente adiciono de 10% a 15% sobre o valor total. Durante muito tempo, adicionava um valor médio por dia para gastos inesperados (aquele chinelo que você esquece, o shampoo que acaba, a multa do carro, a mala que quebra e assim vai – a vida não tem limites, não é mesmo?). Hoje, prefiro colocar um percentual com base nos gastos totais dos outros itens.
É óbvio que o intuito de um orçamento é dar um norte! Não é para ficar na nóia de “ai, meu Deus, meu orçamento para passeio era de R$ 100 e esse custou R$ 200”. Pensa que o orçamento existe para trazer clareza. E clareza traz paz. Isso mesmo.
As categorias listadas acima ajudam a compor um valor total, e é esse valor que importa (e não se você gastou X com hospedagem e 2X com refeição, entende?).
No fundo, estamos falando de colocar limites. E só quem tem - e estabelece - limites na vida sabe a LIBERDADE que isso traz!
Entendendo esse conceito, fica fácil estabelecer o seu orçamento (ou seria limite?) de gastos com viagem no ano. Você nãoooo precisa saber exatamente quais viagens fará. Mas, ao pensar mais ou menos nas viagens que deseja realizar (é nacional ou internacional? De uma semana ou um mês? Família toda ou só você? etc. etc. etc.), fica mais fácil entender o que é viável dentro da sua capacidade financeira sem que isso prejudique seus outros sonhos.
Eu realmente acho que uma vida que valha a pena viver precisa de muitossss sonhos. Inclusive o de trabalhar por opção no futuro porque construiu uma renda complementar com seus investimentos! E montar esse quebra-cabeça da vida é delicioso demais!
Dito tudo isso, vamos às dicas da viagem. Engraçado que essa é a parte que menos acho interessante hoje em dia. Mas, como já fui a pessoa que adorava compartilhar esse tipo de coisa, vou resgatar essa parte do meu ser adormecido e colocar aqui para vocês. =)
Ah, vale uma ponderação: conseguimos preços bem abaixo da média por ser dia de semana, fora de temporada e por ser tudo em cima da hora. O ponto aqui é mostrar que uma restrição (passagem aérea super cara nesse exemplo) acabou por impulsionar uma experiência diferente da que estamos acostumados (pegar o carro e sair sem rumo, escolhendo boas hospedagens por preços mais baixos que o normal). Recomendo os três lugares em que ficamos:
Cabana Jaguatirica (pagamos R$ 840 a diária para o casal — duas diárias durante a semana) - que chalé gostoso! Perfeito para quem quer sossego no meio da mata, mas sem estar muito longe do centro. Notar que é um Airbnb, eles oferecem alguns itens de café da manhã e limpeza de quarto, mas não é serviço de hotel, ok?;



Cabana Jaguatirica - fotos minhas Pousada Villa Sapê (pagamos R$ 675 a diária para o casal — duas diárias durante a semana) - delícia, pé na areia, ambiente calmo, café da manhã muito gostoso, amamos. Depois descobri que ele apareceu na série “hotéis incríveis”. Mais incrível ainda foi o preço que pagamos por ele"! =);



Villa Sapê Pousada - fotos minhas Pousada Casa Luz (pagamos R$ 880 a diária para o casal — uma diária de sexta para sábado). Visual deslumbrante e uma piscina bem gostosa debruçada no mar. Vale apenas uma observação: fica afastada do centro histórico de Paraty e o acesso tem uma ladeira bem íngreme. Não foi uma questão porque já fomos muitas vezes para Paraty e estávamos mais interessados em curtir a pousada (inclusive ela fica bem próxima da pousada Casa Mar Paraty que também é deliciosa… já nos hospedamos lá e adoramos, mas a diária estava bem mais cara).



Pousada Casa Luz - fotos minhas
Restaurantes que curti: Pizzaria Forno e Flora, em Ubatuba; Raízes, em Ubatuba; Thai Brasil, em Paraty; o restaurante da própria Pousada Villa Sapê.
Com relação aos passeios, dessa vez não fizemos nenhum porque pegamos o mar com uma ressaca braba e aproveitamos para descansar e curtir as pousadas/chalé (descansei lutando contra o meu ímpeto de escrever esta News de lá e venci! Hahaha).
Na verdade, apenas conhecemos Itamambuca (amei, quero voltar!) e uma outra praia acessível por uma pequena trilha cujo nome não lembro (sorry). Mas super acho que vale alugar um barco e explorar as ilhas. Já fizemos isso muitas vezes em Paraty e até dormimos duas noites num veleiro por lá (meu filho amou a experiência!). Agora teremos que retornar a Ubatuba para explorar as ilhas da região também.
Dentro de poucas semanas faremos outra viagem, só que essa será “de grande porte”. O orçamento foi feito seguindo a lógica que descrevi aqui, e a viagem já está 100% paga. Passagens foram compradas, hospedagens reservadas e os gastos que pretendemos fazer lá já estão convertidos na moeda local dentro da Wise (não é propaganda, use o cartão “pré-pago” que achar melhor - acho um ótimo aliado). Sem parcelar nada. “Ah, Carol, mas se eu não parcelar não consigo viajar” ou “adoro parcelar porque meu dinheiro fica rendendo”. Bem, isso também mereceria outra edição.
Então, por ora, vou parar por aqui para não tirar o foco do que eu realmente quero que você leve deste texto: viajar é maravilhoso, mas custa dinheiro. Se você tem sonhos nesta vida, saiba precificá-los. A viagem e tantas outras coisas são apenas partes de um grande quebra-cabeça. E o planejamento financeiro tem um poder incrível de ajudar você a colocar cada peça no lugar para que possa, cada vez mais, ter a vida que deseja.
OBS1: Quando falo em viagens de pequeno ou grande porte, estou falando apenas da minha realidade (afinal, cada pessoa tem um contexto único). O ponto nunca foi o tamanho do orçamento, mas mostrar como estabelecer parâmetros nos ajuda a tomar decisões com mais tranquilidade. No nosso caso, uma restrição (não pagar um preço alto nas passagens aéreas) acabou nos levando a uma viagem maravilhosa e totalmente inesperada. Reforçando o que já falei: às vezes, são justamente os limites que ampliam as possibilidades.
OBS2: Foram quase 2 anos sem escrever, mas eu realmente voltei para ficar! A próxima edição já está no forno, estou muito empolgada e cheia de ideias para este espaço. =)



Oi, Carol!
Acompanho você (e a Vic) no podcast e já vinha consumido as suas newsletters mais antigas.
Fico feliz que tenha voltado a escrever, para acompanhar "on time". Sinto que sua escrita, de fato, aproxima a relação escritora-leitora, e ouço sua voz ao ler suas palavras.
Abraço pra você!
👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼